Inclusão é atitude: 5 práticas para viver a diversidade na escola

Falar de inclusão é falar de humanidade. É reconhecer que cada pessoa traz consigo uma história, um ritmo e um jeito único de aprender. A escola, quando verdadeiramente inclusiva, é aquele espaço onde todos cabem — com suas diferenças, sonhos e desafios. Como lembra Paulo Freire (1996), “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para a sua própria produção ou construção”. Nesse sentido, não podemos olhar somente para as políticas ou adaptações formais, mas devemos pensar nas nossas atitudes onde possibilitamos abrir espaços para o outro poder escutar, acolher e acreditar.

Mais do que um conjunto de estratégias pedagógicas, a inclusão nasce do olhar que enxerga potencial onde outros veem limites, da escuta que acolhe antes de julgar e da disposição genuína em compreender o que cada aluno precisa para aprender e pertencer.

Na escola, a atitude inclusiva se expressa nos gestos cotidianos: no professor que se aproxima para ouvir uma dúvida, na turma que aprende a respeitar diferentes formas de se comunicar, no planejamento que considera todos os ritmos e estilos de aprendizagem. É nesse espaço de escuta e confiança que a aprendizagem floresce.

Assim, a inclusão deixa de ser apenas uma diretriz e se torna uma forma de viver a educação — um compromisso com a humanização das relações e com a construção de uma comunidade escolar que aprende com as diferenças.

A seguir, conheça cinco práticas inclusivas que fortalecem esse compromisso e ajudam a tornar o cotidiano escolar mais acolhedor, democrático e transformador.

1. Escutar com empatia

A escuta é o primeiro passo para a inclusão. Mais do que ouvir palavras, é preciso compreender sentimentos, silêncios e expressões. Lev Vygotsky (1989) já defendia que o desenvolvimento humano se constrói nas interações sociais — e escutar o outro com empatia é o que permite essa construção conjunta.

Quando o aluno sente que sua voz é valorizada, ele se abre para aprender e participar. Escutar é um gesto pedagógico potente: revela respeito, acolhimento e confiança. A empatia transforma a relação entre professor e estudante e cria o ambiente emocional necessário para o aprendizado.

2. Adaptar sem perder o sentido

Adaptar não é reduzir — é garantir acesso. A Declaração de Salamanca (1994) lembra que “as escolas devem acolher todas as crianças, independentemente de suas condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais, linguísticas ou outras”. Isso significa que o professor pode (e deve) reinventar suas práticas para atender às múltiplas formas de aprender.

Uma boa adaptação é aquela que mantém o sentido do conteúdo, mas muda o caminho. Pode envolver recursos visuais, música, jogos, tecnologia ou atividades práticas. Como reforça Paulo Freire (1996) “Mudar é difícil, mas é possível. A mudança começa no olhar que reconhece o outro como sujeito do processo educativo.”

3. Valorizar o trabalho em equipe

A inclusão é um trabalho coletivo. Quando professores, gestores, profissionais do AEE e famílias caminham juntos, o processo de aprendizagem se torna mais eficaz e significativo. Freire (1997) já dizia que “ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho, os homens se educam em comunhão”.

O trabalho em equipe permite que as informações sobre o aluno circulem, que as estratégias sejam construídas de forma colaborativa e que todos se sintam parte do processo. Incluir é somar forças — e a escola que aprende a trabalhar em rede multiplica resultados.

4. Celebrar as diferenças

Cada aluno é um universo. Celebrar as diferenças é reconhecer que a diversidade é fonte de aprendizado, e não obstáculo. A escola que valoriza a singularidade de cada estudante ensina, na prática, o respeito e a convivência democrática.

Como afirma Boaventura de Sousa Santos (2001), “temos o direito a ser iguais quando a diferença nos inferioriza, e o direito a ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza”. Promover atividades que mostrem talentos, interesses e conquistas individuais — como feiras culturais, murais ou projetos coletivos — ajuda a construir uma cultura de pertencimento e respeito.

5. Manter o olhar esperançoso

Incluir é um caminho contínuo. Requer paciência, persistência e fé no potencial de cada um. O olhar esperançoso é aquele que acredita que a mudança é possível e que cada pequeno avanço já é uma grande conquista.

Para Paulo Freire (1997), “a esperança precisa da prática para se tornar realidade”. Assim, o professor se torna um agente de transformação — alguém que, mesmo diante das dificuldades, continua acreditando que a educação pode libertar e incluir.

Mais do que um conjunto de estratégias, a inclusão é uma atitude diária de amor, respeito e compromisso com o outro. Quando a escola assume essa postura, ela não apenas ensina conteúdos, mas também valores que formam cidadãos empáticos, criativos e solidários. Vamos viver a inclusão!

As cinco práticas apresentadas mostram que incluir é possível — e começa nas pequenas atitudes: escutar, adaptar, colaborar, celebrar e acreditar. É assim, passo a passo, que a escola se torna um lugar onde todos aprendem, ensinam e pertencem.

Referências

FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

FREIRE, P. Pedagogia da Esperança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.

VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

MANTOAN, M. T. E. Inclusão escolar: o que é? por quê? como fazer? São Paulo: Moderna, 2006.

BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS. Reconhecer para libertar: os caminhos do cosmopolitismo multicultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

Declaração de Salamanca e Linha de Ação sobre Necessidades Educativas Especiais. Salamanca, 1994.

Autora: Tatiana Bertti é Pedagoga e Especialista em Educação Especial e Inclusiva, com mais de 10 anos de experiência na área educacional, atuando como Coordenadora Pedagógica. Pós-graduada em Neuropsicopedagogia Clínica e Formadora ABA – Análise do Comportamento Aplicada.

Atualmente integra o Grupo Vitae Brasil como Coordenadora de Operações na área de Educação Especial e Inclusiva, desenvolvendo e implementando soluções tecnológicas e práticas inclusivas em parceria com secretarias municipais de educação em diferentes regiões do país.

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