Quando o “capricho” vira risco: NR 1, saúde mental e o dever do cuidado com quem ensina

O que a NR 1 diz sobre a saúde mental dos professores e sobre a organização do trabalho escolar

Certo dia, uma professora de uma instituição privada de ensino me procurou. Ela aparentava estar cansada. Os olhos tinham olheiras, estavam marejados e, no desabafo, disse: “…eu não aguento mais”.

O motivo não era apenas a longa jornada, já pesada por natureza. O motivo era a soma. Além das demandas corriqueiras, ela recebeu uma tarefa manual que, numa análise rápida, era desumana, algo que exigiria, no mínimo, duas semanas de trabalho e que fugia totalmente do escopo do fazer docente. Eu, por exemplo, autora que aqui escreve, em dezesseis anos de trabalho pedagógico, jamais vi, e jamais ouvi, tal demanda.

Outros professores também haviam sinalizado o incômodo à equipe gestora. E, em vez de reflexão e ajuste de rota, houve insistência. A justificativa informal que circulou foi uma palavra curta e perigosa: “É capricho!”. Uma vontade que se impõe, apesar dos alertas, como se a equipe existisse para cumprir a decisão e não para sustentar o trabalho pedagógico com dignidade.

Capricho: uma palavra com vários sentidos, um só encaixe nessa narrativa

No Dicionário Priberam, “capricho” abriga sentidos que vão do neutro ao belo, e do belo ao preocupante. A palavra pode significar “fantasia; brio”. Pode significar, também, “vontade súbita e infundada”, “modificação que sofrem as modas, as ideias”, “aferro obstinado (a uma ideia)” e “empenho (em levar a cabo uma coisa sem razão ou motivo que obrigue)”.

Na escola, o problema não é a palavra em si. O problema é quando, na prática, ela vira método de gestão. No caso desta narrativa, “capricho” não aparece como esmero nem como cuidado com detalhes. Ele se aproxima do sentido que machuca: a obstinação e o empenho sem razão pedagógica ou organizacional que obrigue. Ele aparece como uma decisão que exige obediência, não adesão. Exige execução, não sentido.

E aqui nasce a ponte com a Norma Regulamentadora nº 1.

Norma Regulamentadora Nº 1: o trabalho precisa enxergar o invisível

A Norma Regulamentadora nº 1 (NR 1) estabelece diretrizes para o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), definindo o GRO como um processo contínuo e sistemático de identificação de perigos, avaliação e controle de riscos, com foco em prevenir lesões e agravos à saúde relacionados ao trabalho.

O que isso significa no cotidiano escolar. Significa reconhecer que risco ocupacional não é apenas o que se mede com aparelhos ou se vê a olho nu. Risco também é o que se produz na forma como o trabalho é concebido, distribuído e cobrado.

O Ministério do Trabalho e Emprego foi explícito ao orientar que, a partir de 26 de maio de 2026, a NR 1 incluirá expressamente os fatores de risco psicossociais no GRO, e que a autuação pela Inspeção do Trabalho terá início nessa mesma data, após um período educativo e orientativo.

O Guia do Ministério do Trabalho e Emprego reforça a mesma direção: os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho devem ser avaliados e controlados, podendo envolver exemplos como sobrecarga de trabalho e assédio, integrando o inventário de riscos.

Por que isso importa na escola?

Porque a escola é, também, um ambiente de trabalho. E a saúde mental docente deixou de ser um tema “de conversa” para ser tema de responsabilidade da organização do trabalho.

Sabemos que questões emocionais vivenciadas por docentes podem repercutir no aprendizado dos estudantes, no vínculo com as famílias, na dinâmica da gestão escolar e, consequentemente, interferir na qualidade educacional da instituição.

Os dados ajudam a romper o silêncio. Uma reportagem da Você S.A aponta que, em 2023, mais de 150 mil professores da rede pública brasileira foram afastados por motivos relacionados à saúde mental, com base em levantamento da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, construído a partir de dados do Instituto Nacional do Seguro Social. Entre os motivos, aparecem com força o esgotamento emocional, muitas vezes associado à depressão e ao burnout.

Diante desse cenário, normalizar a sobrecarga não é apenas “cobrar”. É organizar o trabalho de um jeito que aumenta o adoecimento. É transformar pressão cotidiana em risco ocupacional.

 O que a norma regulamentadora Nº 1 exige da liderança escolar?

A NR 1 não pede que a escola vire um departamento técnico. Ela pede organização. Ela pede que o risco seja visto, registrado, priorizado e enfrentado.

Na prática, o que o Ministério do Trabalho e Emprego e o seu guia deixam claro é que a organização deve documentar adequadamente o processo no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) ou na Avaliação Ergonômica Preliminar (AEP), com identificação de riscos, avaliação de perigos e medidas preventivas adotadas.

 Como cuidar da equipe pedagógica com seriedade e organização?

Cuidar não é apenas acolher quando alguém chora. Cuidar é governar o cotidiano com critérios, limites e previsibilidade.

Vamos de alguns exemplos?

 Primeiro: nomear prioridades e cortar ruído
Toda equipe aguenta esforço quando entende propósito e limite. O que adoece é a urgência permanente e a demanda fora de escopo. Quando algo novo surgir, a gestão precisa decidir o que sai para que o novo caiba. Isso é organização do trabalho.

Segundo: instituir escuta ativa como rotina
Escuta ativa é agenda, não improviso. É encontro breve, frequente, com perguntas objetivas e devolutivas honestas. Quando a escuta vira rotina, o professor não precisa adoecer para ser ouvido.

 Terceiro: proteger o tempo pedagógico
Planejamento, correção, estudo e descanso não são “luxos”. Eles são base de um trabalho sustentável. O guia do Ministério do Trabalho e Emprego relaciona fatores psicossociais diretamente à forma como as atividades são concebidas, organizadas e geridas.

Quarto: tratar o “capricho” como sinal de alerta
Quando uma liderança insiste sem razão pedagógica que obrigue, apesar de alertas, ela cria insegurança psicológica. Ela transforma professor em executante de vontade. E vontade, quando vira ordem sem sentido, produz desgaste.

 Quinto: agir antes do afastamento
A escola não deve esperar o colapso para se mover. Se o mundo do trabalho está formalizando a gestão desses riscos, a escola precisa liderar esse movimento com responsabilidade, antes que ele chegue como crise.

Lembre-se: cuidar de quem ensina é governar a escola com responsabilidade

A NR 1 nos direciona àquilo que é profundamente pedagógico: a qualidade do ensino começa nas condições de trabalho.

Quando a gestão troca organização por capricho, e escuta por insistência, ela assume riscos que não são apenas normativos. Ela assume riscos humanos, pedagógicos e institucionais. E a conta sempre chega.

Cuidar da equipe pedagógica é liderança. É firmeza com prioridades, clareza com critérios, humanidade com limites e compromisso com a dignidade de quem sustenta a escola todos os dias.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. NR 01: disposições gerais e gerenciamento de riscos ocupacionais (GRO). Brasília, DF: Ministério do Trabalho e Emprego, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/conselhos-e-orgaos-colegiados/comissao-tripartite-partitaria-permanente/normas-regulamentadora/normas-regulamentadoras-vigentes/nr-01-atualizada-2025-i-1.pdf. Acesso em: 23 jan. 2026.

BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Portaria nº 1.419, de 27 de agosto de 2024. Aprova a nova redação do capítulo “1.5 Gerenciamento de riscos ocupacionais” e altera o “Anexo I Termos e definições” da Norma Regulamentadora nº 1. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 28 ago. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/assuntos/inspecao-do-trabalho/seguranca-e-saude-no-trabalho/sst-portarias/2024/portaria-mte-no-1-419-nr-01-gro-nova-redacao.pdf. Acesso em: 23 jan. 2026.

BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Inclusão de fatores de risco psicossociais no GRO começa em caráter educativo a partir de maio. Brasília, DF, 24 abr. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/noticias-e-conteudo/2025/abril/inclusao-de-fatores-de-risco-psicossociais-no-gro-comeca-em-carater-educativo-a-partir-de-maio. Acesso em: 23 jan. 2026.

BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Guia de informações sobre os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho. Brasília, DF, 2025. Disponível em: https://cdn.protecao.com.br/wp-content/uploads/2025/04/Guia-Fatores-de-Riscos-Psicossociais-MTE.pdf. Acesso em: 23 jan. 2026.

PRIBERAM. Capricho. Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, 2008 2026. Disponível em: https://dicionario.priberam.org/capricho. Acesso em: 23 jan. 2026.

VOCÊ S.A. Depressão e burnout são as principais causas de afastamento de professores no Brasil. Você S.A, 4 jul. 2025. Disponível em: https://vocesa.abril.com.br/carreira/depressao-e-burnout-sao-as-principais-causas-de-afastamento-de-professores-no-brasil/. Acesso em: 23 jan. 2026.

Sobre a autora:

Sâmia Assis Fernandes Carvalho é pedagoga especializada em Esporte Educacional, Educação Profissional, Gestão Escolar, Direito Educacional e possui MBA em Gestão de Negócios. Atualmente, cursa bacharelado em Fonoaudiologia. Atua na área da educação há 17 anos, sendo 13 como Gestora Escolar. Atualmente, é Diretora Executiva da De Cor Educacional, Conselheira Consultiva do Instituto VIDA e Coordenadora de Operações Educacionais da solução em Formação Continuada de Educadores do grupo Vitae Brasil.

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